Texto colaborativo.
Kátia Barreto (É química, com especialização em cosmetologia)
Carla Carvalho (Entusiasta do meio ambiente e alternativas de sustentabilidade).

Me pego certa vez, refletindo entre No/Low Poo e meio ambiente, enquanto assistia um daqueles documentários do NetFlix sobre sustentabilidade. Demain (Tomorrow ou Amanhã) mostrava tudo que eu pensava sobre o mundo, de forma mais articulada, triste, porém cheia de esperança. Sobre o futuro do nosso planeta? Já se ouve muito sobre isto: aquelas notícias breves do jornal em que se fala sobre desmatamento, camada de ozônio, aquecimento da terra…  Notícias breves, tão tímidas em meio as filmagens de violência e articulações político-partidárias.

Em Demain vi o quanto o No Poo e Low Poo eram presentes nas entrelinhas daquelas falas. Será que estas técnicas devem se resumir só ao nosso cabelo? Assim pensei. Temos uma responsabilidade tremenda com a nossa casa. Zelamos por ela, porque zelamos por nós mesmos.  E o mundo? Não seria ele nossa casa maior?

 

 

O No Poo e o Low Poo surgiram como técnicas de tratamento para cabelos cacheados, abolindo o uso de derivados de petróleo dos cosméticos, por se tratar de compostos que possuem uma aderência maior nos cabelos, sendo mais difícil a sua retirada nas lavagens. Cabelos ressecados sofrem demais com o uso de shampoos comuns e são justamente estes shampoos que retiram os derivados de petróleo que acumulamos em nossos fios.

O petróleo: fonte natural não-renovável e cada vez menos disponível na natureza. Você já olhou ao seu redor quantas coisas provém deste líquido escuro? A gasolina é uma parte muito pequena do que você pode encontrar no seu dia a dia sobre ele.

No craqueamento do petróleo1 obtém-se muitos produtos, mas que de fato são usualmente utilizados na produção de cosméticos são a parafina líquida, óleo mineral, petrolatum, cera de ozoquerita, cerezina e cera microcristalina. Esses nomes na verdade são sinônimos para um mesmo composto, que é uma mistura, em sua maior parte, de hidrocarbonetos2. O que difere entre eles é a viscosidade, ou a forma de apresentação física, por exemplo a cera de ozoquerita (sólida) e a parafina (líquida). Nossos cosméticos estão repletos destes subprodutos do petróleo, por exemplo: Parafina Liquida se apresenta como Parafinum Liquidum, Petrolato como Petrolatum e Ozoquerita como Cera Ozokerite.

 

O eterno ciclo, shampoo forte – retirada dos derivados de petróleo, nos faz pensar em todos os danos que este composto pode causar aos fios mais ressecados. As técnicas Low e No Poo nos afastaram dos derivados de petróleo e nos aproximou, mesmo que de forma inconsciente, das causas ambientais.

Desequilíbrio ambiental causado por vazamento na extração de petróleo.

Assim como a saúde dos cabelos, a natureza se esgota.

O processo produtivo dos petroquímicos, como todo processo industrial, libera na atmosfera dióxido de carbono, que em grande quantidade, prejudica a camada de ozônio e aquece o planeta. A fumaça das grandes indústrias continuam comprometendo o nosso ar e deslocando autoridades para encontros colossais onde a promessa é o controle da emissão de gases, como a COP-21 (Conferência do Clima da ONU) ao invés da união de idéias e compartilhamento de alternativas ecológicas para as comunidades.

Porém, o pior legado do petróleo são os vazamentos na extração e as tristes catástrofes ambientais causadas por eles. Aqui conhecemos toda a alteração do ecossistema, do solo e da própria paisagem natural, que volta-se para atender as necessidades de uma industria cada vez mais lucrativa, e a seres humanos cada vez mais dependentes. Os vazamentos de petróleo destroem toda a vida marinha, e prejudica inclusive a produção de oxigênio do planeta3. O sentimento de tristeza e a indignação só toma corpo quando os casos são noticiados na TV. Mas os vazamentos de petróleo são contínuos e silenciosos.

Mas existe um caminho e ele é muito bonito, pois vivemos um verdadeiro resgate ancestral da sabedoria dos nossos avós. Estamos redescobrindo o poder das ervas, dos óleos vegetais e amando cada vez mais o que a natureza tem a nos oferecer. As indústrias estão percebendo que existem pessoas cada vez mais preocupadas com o que colocam em seus corpos. E aí estão os óleos vegetais como alternativas ao óleo mineral, e as ceras vegetais que substituem as ceras de origem mineral em tantos cosméticos. Estamos relembrando e buscando o que os antigos nos ensinaram.

Optar pela isenção dos derivados de petróleo em nossos cosméticos é também uma atitude positiva que reforça a preocupação com a natureza. Alguns dirão que esta é uma atitude muito pequena, perante o uso de embalagens plásticas, o consumo desenfreado e o descarte de lixo dos próprios cosméticos que consumimos. Mas o que somos nós, além de meros aprendizes deste mundo gigante? Uma pequena atitude para um futuro mais sustentável. Pensando nisso, amanhã com certeza seremos melhores do que somos hoje.

Referências de leitura:
http://meioambiente.culturamix.com/ecologia/maiores-vazamentos-de-petroleo-do-mundo 
https://luisabisceglia.jusbrasil.com.br/artigos/235260394/poluicao-e-contaminacao-ambiental-a-extracao-de-petroleo-e-seus-reflexos-no-meio-ambiente 
http://portal.aprendiz.uol.com.br/content/responsavel-por-metade-do-oxigenio-da-terra-plancton-dos-oceanos-cai-40

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1 – Craqueamento do petróleo é o processo de separação das substâncias derivadas do petróleo, basicamente a separação de gás natural, gasolina, querosene, óleo diesel, óleo lubrificante e asfalto.
2 – Hidrocarbonetos são moléculas orgânicas que contêm apenas carbono e hidrogênio em sua composição.
3 – Estudos apontam que os plânctons são responsáveis pela grande produção de oxigênio de nosso planeta.